quarta-feira, 25 de maio de 2011

Vermelho desbotado


O dia cinza anoitece, fadado ao lusco fusco e aos carros que passam borrando minha janela. Sou apenas mais uma das pessoas beges e foscas que observam a rua vestindo um pijama listrado. Estou envelhecido, empobrecido e desfeito, em plena quarta-feira. Os prédios esfumaçados viram musgo sob a área manchada do meu vidro.

Termina mais uma tarde defasada, com gosto de repolho. Sobre a mesa os restos de ontem repousam junto de alguns mosquitos tontos e uma garrafa, com os dizeres:

Viva o lado Coca-Cola da vida


Vivo?


Meu vermelho é desbotado.





Joguei a garrafa fora e fui dormir.

(Clarice Pedrosa de Cerqueira)

obs: imagem retirada do site
http://www.public-domain-photos.com/city/city-light-3-1.htm

sábado, 21 de maio de 2011

Desabrochar de março

Foto por Felipe Augusto Viana

Em uma flor loura desabrochara meu março, meu começo de mundo, começo de vida.
Depois de uma noite em febre, na qual eu fora vítima da gripe que assolava a cidade, fui levada pela minha ávo à missa matinal, onde ela pediria por mim. O sino soava fantasiando as luzes multicoloridas e quentes que entravam por entre os vitrais da igreja. Meu corpo pequeno tremia de frio e doença, murchava.
Saí para olhar as flores que coroavam o rio. Uma ave passava rasante pelo silêncio. Foi quando o vi. Um menino também pequeno de uma cidade pequena, não longe dali.
Durante a missa não pude ouvir o padre, nem as gaivotas, o piano ou o sino.
Foi-se a febre e o frio.
Ouvia apenas o som de fim de março, um prenúncio de vida, a flor da manhã, o menino e meu primeiro amor.

Clarice Cerqueira

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Rodeio

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Trechinho

O ruidoso som do lápis que roda no papel
não quer nunca encontrar o fim
por isso o risco segue
e encontra o infinito
voltando ao início

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Um amor de crocodilo


Por Clarice P Cerqueira

(Proposta da aula de criação literária)

No próximo mês faz dois anos desde o incidente que irei relatar. Estava em um passeio, descendo o Velho Chico de canoa. O guia contava sobre as peculiaridades da região enquanto eu me perdia imaginando as criaturas que viviam naquela imensidão aquática.

O sol começava a se pôr e o calor era dissipado pela noite que aproximava. De súbito a canoa virou. Com rapidez surpreendente o guia já estava à beira do rio, enquanto eu me debatia tentando me segurar na madeira para manter o rosto fora d’água. Senti minhas pernas serem puxadas e mergulhei na imensidão. Por um momento achei que ia morrer, no entanto, depois de recompor as forças o fundo do rio não parecia tão ruim assim. - É, acho que morri.- Mas a realidade era muito diferente.

Eu me locomovia rapidamente por debaixo d’água e não tinha problemas para prender a respiração. Por alguns minutos aproveitei a sensação e dei piruetas, cambalhotas, poderia dizer que corri debaixo d’água. Quando, por fim, resolvi voltar à superfície e à vida real, ela apareceu. Uma pequena e ágil crocodila, de olhos vivos e um jeito engraçado. Só então compreendi no que eu havia me transformado. Esforcei-me ao máximo para virar a cabeça e pude ver a ponta de minha cauda.

Não sei se tal expressão facial é possível para um crocodilo, mas tenho certeza de que quando a vi, eu sorri. - Sorri de orelha a orelha, como diriam os humanos - Eu estava apaixonado.

O resto da noite foi maravilhosa, rodopiamos pela água, vimos diversos tipos de peixe, andamos pela beirada do rio e conhecemos outros crocodilos. Ela era extremamente gentil e divertida, um pouco durona talvez - coisa de crocodilo - Ela me contou a história de sua espécie e me ensinou alguns truques de caça e sobrevivência.

Ao final da noite olhamos a lua cheia e adormecemos. Acordei agitado pela manhã com a voz do guia. Eu voltara a ser humano. - Você virou réptil não foi? - assegurei com a cabeça, ainda sem saber como falar. - Alguma crocodila te enfeitiçou. Elas fazem isso por aqui, quando se apaixonam. Enfeitiçam os homens para ficar com elas nas noites de lua cheia. E você tirou a sorte grande garoto! - ao final da frase o homem soltou uma gargalhada debochando de mim.

Ao voltar para casa não consegui ficar em minha cidade, Belo Horizonte. Eu não comia, não trabalhava direito, não conseguia assistir à filmes, qualquer coisa me deixava amuado. Terminei com Fernanda, minha namorada de infância e em momento algum ousei dizer que ela foi trocada por um jacaré - pegava mal, muito mal. - A verdade é que eu só conseguia pensar naqueles olhinhos vivos.

Cada um de nós tem sua sina. Sereias, lobisomens, vampiros e até sapos, mas quem pensaria em crocodilos? - Hoje moro à beira do rio, trabalho aqui por perto e nas noites de lua cheia me transformo em réptil para ver minha linda - isso depende do ponto de vista é claro - namorada.

(ps: foto de domínio público: http://www.4freephotos.com)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Gaveta

O telefone do otorrinolaringologista
a conta do dentista
desconto em curso de inglês
uma caneta procurada
foto empoeirada
um brinco de ouro
sem par
uma senha de e-mail
e o meu colorido colar
uma piada
recibo
e um cartão vencido
uma caixinha largada
com papel de bombom
envelhecido
o bilhete de cinema
o beijo
e um carinho
o cheiro eterno de um presente
uma foto pequena
rasgada
uma tarde de domingo
a lua
os restos de flor em um livro
anel antigo
uma lágrima
saudosa
recém-colocada
guardada
agora, engavetada

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Feto de mundo

Fingi ser um feto de mundo no museu da música. Nascido da façanha sutil do solstício. De um satélite eu latejava lentamente.

Era um ser que vagava pelos sussurros seguindo o maestro da noite.

Eu mudava de forma, ora era som, ora silêncio. Estava nos lenços e às vezes nas fitas das moças. Aqueles que me chamavam de mito ou de malandro não ousavam me aceitar. Mas eu estava lá.

Alguns me agarravam fascinados, virava farda. Fardo. Jogava-os no fundo do poço ou carregava-os pela fantasia formosa do futuro.

Era segredo, era saudade, mas nunca satisfação. Estava ao seu lado, à sua frente, refletido maravilhosamente na Lua.

Meu nome era solidão.