Um amor de crocodilo


Por Clarice P Cerqueira

(Proposta da aula de criação literária)

No próximo mês faz dois anos desde o incidente que irei relatar. Estava em um passeio, descendo o Velho Chico de canoa. O guia contava sobre as peculiaridades da região enquanto eu me perdia imaginando as criaturas que viviam naquela imensidão aquática.

O sol começava a se pôr e o calor era dissipado pela noite que aproximava. De súbito a canoa virou. Com rapidez surpreendente o guia já estava à beira do rio, enquanto eu me debatia tentando me segurar na madeira para manter o rosto fora d’água. Senti minhas pernas serem puxadas e mergulhei na imensidão. Por um momento achei que ia morrer, no entanto, depois de recompor as forças o fundo do rio não parecia tão ruim assim. - É, acho que morri.- Mas a realidade era muito diferente.

Eu me locomovia rapidamente por debaixo d’água e não tinha problemas para prender a respiração. Por alguns minutos aproveitei a sensação e dei piruetas, cambalhotas, poderia dizer que corri debaixo d’água. Quando, por fim, resolvi voltar à superfície e à vida real, ela apareceu. Uma pequena e ágil crocodila, de olhos vivos e um jeito engraçado. Só então compreendi no que eu havia me transformado. Esforcei-me ao máximo para virar a cabeça e pude ver a ponta de minha cauda.

Não sei se tal expressão facial é possível para um crocodilo, mas tenho certeza de que quando a vi, eu sorri. - Sorri de orelha a orelha, como diriam os humanos - Eu estava apaixonado.

O resto da noite foi maravilhosa, rodopiamos pela água, vimos diversos tipos de peixe, andamos pela beirada do rio e conhecemos outros crocodilos. Ela era extremamente gentil e divertida, um pouco durona talvez - coisa de crocodilo - Ela me contou a história de sua espécie e me ensinou alguns truques de caça e sobrevivência.

Ao final da noite olhamos a lua cheia e adormecemos. Acordei agitado pela manhã com a voz do guia. Eu voltara a ser humano. - Você virou réptil não foi? - assegurei com a cabeça, ainda sem saber como falar. - Alguma crocodila te enfeitiçou. Elas fazem isso por aqui, quando se apaixonam. Enfeitiçam os homens para ficar com elas nas noites de lua cheia. E você tirou a sorte grande garoto! - ao final da frase o homem soltou uma gargalhada debochando de mim.

Ao voltar para casa não consegui ficar em minha cidade, Belo Horizonte. Eu não comia, não trabalhava direito, não conseguia assistir à filmes, qualquer coisa me deixava amuado. Terminei com Fernanda, minha namorada de infância e em momento algum ousei dizer que ela foi trocada por um jacaré - pegava mal, muito mal. - A verdade é que eu só conseguia pensar naqueles olhinhos vivos.

Cada um de nós tem sua sina. Sereias, lobisomens, vampiros e até sapos, mas quem pensaria em crocodilos? - Hoje moro à beira do rio, trabalho aqui por perto e nas noites de lua cheia me transformo em réptil para ver minha linda - isso depende do ponto de vista é claro - namorada.

(ps: foto de domínio público: http://www.4freephotos.com)

Comentários

  1. GOstei muito, ficou otimo! Acho que as vezes durante o texto as coisas acontecem rapido de mais, mas pela proposta do texto nao acho um defeito muito grave.

    Beijos

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  2. muito criativo!!! adoro ler tudo q vc escreve!!!!

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  3. Muito obrigada Lu e Felipe por comentar!

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